Review | A deliciosa novela de bilionários sociopatas chamada ‘Succession’

A original HBO não foi uma das grandes vencedoras do Emmy 2020 à toa.

Matheus Esperon

São muitos os motivos que fazem das novelas um gênero de televisão tão bem sucedido. Grandes atores, tramas próximas da população, um homem sem camisa chamado de “pescador parrudo”… Mas nenhuma razão é tão importante quanto o fato das novelas se basearem primordialmente em uma coisa: fofoca.

A fofoca é um conceito milenar que une a espécie humana, desde o homem das cavernas contando como outro literalmente se cagou com o som trompetal do mamute durante a última caçada, até os seus vizinhos do prédio em frente que te veem pelado depois do banho e contam pros amigos depois – se você não tem um vizinho peladão, o vizinho peladão é você.

E Succession, série original da HBO que foi um dos grandes destaques do Emmy 2020, é basicamente um novelão (de bilionário sociopata).

A série acompanha a história da família Roy, dona de um dos maiores conglomerados de mídia do mundo, numa clara alusão à família Murdoch e sua News Corporation (Fox News, 20th Century Fox, The Wall Street Journal, dentre muitos outros). Mas não é qualquer história: é uma trama de sucessão, já que o patriarca da família, Logan (Brian Cox), vem encaminhando sua aposentadoria sob os olhos atentos – e ambiciosos – de seus quatro filhos.

Só que “ambiciosos” na verdade é um jeito carinhoso demais de descrever não só os filhos, como o próprio Roy: todos são extremamente filhos da puta e inescrupulosos, sem vergonha nenhuma de apunhalar até a própria família pelas costas nessa busca por poder. E é aí que entra o fator novela: cada personagem tem seus próprios planos, armações e aliados, que rapidamente começam a bater de frente entre si, gerando novas alianças e, claro, traições.

A história por si só é uma delícia de acompanhar, sendo quase uma experiência sádica (mas ver gente rica se fodendo é bom demais, então tudo bem), graças ao roteiro sempre afiado e inventivo do também criador Jesse Armstrong, cujo passado tanto no drama quanto na comédia garante uma excelente relação entre os gêneros em ‘Succession’: é majoritariamente drama, mas as situações (e especialmente reações) vão ficando tão absurdas que é impossível pra quem tá acompanhando aquele universo de fora não enxergar um pouco de humor também.

A direção também ajuda demais, especialmente com toda a influência do produtor (e diretor do piloto) Adam McKay, que traz muito do que foi sucesso nos seus filmes ‘A Grande Aposta’ e ‘Vice’ pra ‘Succession’ também. Não há necessariamente tomadas super bonitas, uau, enquadramentos diferenciados: é tudo muito sutil, com exceção dos zooms utilizados pra reforçar o drama ou a comédia das cenas.

Mas a direção, por mais discreta que seja, é extremamente bem trabalhada durante os diálogos (provavelmente 90% de toda a série), com as cenas se estendendo muitas vezes até dentro do território da vergonha alheia, com o objetivo de explorar todas as reações, micro e macro, dos personagens. Numa trama basicamente sobre traições, isso é fundamental.

E além disso tudo, as atuações são simplesmente uma sacanagem. Literalmente todo mundo que aparece em cena, desde os protagonistas até os coadjuvantes, entregam performances e personagens inacreditáveis de bons. Não à toa que entre os vários prêmios que a série ganhou ao longo de suas duas temporadas desde 2018, há quatro grandes troféus só na categoria de atuação – um Globo de Ouro pra Brian Cox (o patriarca Logan Roy) e três Emmys, um pra Jeremy Strong (o filho Kendall Roy), outro pra Cherry Jones (atriz convidada em dois episódios) e mais um pra Avy Kaufman (diretor de elenco da série).

Com tantos pontos positivos, fica difícil não categorizar ‘Succession’ como uma das melhores séries, e fofocas, dos últimos anos.

Divulgação

Succession

Simplesmente uma das melhores séries dos últimos anos e um dos grandes acertos da história da HBO. Direção, roteiro, atuações e personagens, tudo perfeito pra criar uma gostosa novelona gringa sobre rico se fodendo.

  • Atuações incríveis (especialmente dos protagonistas da família Roy, mas não apenas deles)
  • Direção extremamente competente
  • Drama com toques muito bem dados de comédia
  • RICO SE FODENDO
Nota: 5/5